Segunda-feira, Janeiro 09, 2012

Crack: enxugando gelo

Em 1997, fui assaltada por dois meninos-zumbis na rua Amaral Gurgel, centro de São Paulo. Tinha mudado há menos de um ano e não conhecia muito bem a cidade. Foi quando descobri que a maioria dos meus amigos evitava o trajeto que enfrentei de janela aberta, sem imaginar que estava na região que ficou conhecida como cracolândia. De lá pra cá, muitas foram as reportagens mostrando o consumo de drogas por ali. As venda de pedras nas ruas. A ação tímida e esporádica da polícia e do estado.

Não é novidade para ninguém que o centro de São Paulo foi uma das portas de entrada no país desta droga devastadora. O que espanta é a polícia intervir agora e apenas para banir da área os usuários. Foram muitas anos para que se elaborasse uma política para combater o tráfico e uma estratégia de tratamento para os dependentes. Houve tempo suficiente para que o governo e a prefeitura diagnosticassem a seriedade e amplitude do problema.

O poder público resolveu agir agora com policiais e bombas de efeito moral para dispersar a multidão de zumbis que vai para o centro comprar e consumir o crack. O vídeo feito pela Folha de São Paulo mostra a polícia chegando ao local e que os moradores não acreditam que esta truculência vá resolver a situação - defendem que a ação envolva o tratamento dos que vagam por ali em busca das pedras.

O que parece óbvio, passa despercebido pelo poder público, que segue com a operação limpeza e com o objetivo de impor dor e sofrimento aos consumidores de crack. Enquanto segue o espetáculo grotesco, o tráfico continua. E como mostra o Estado de São Paulo , os policiais sabem que não vai adiantar nada esta "estratégia". Basta ler as declarações dos próprios policiais, publicadas pelo jornal:

"Os próprios policiais parecem cansados da "procissão do crack". "Enquanto a droga estiver chegando aqui, não tem jeito. A gente só vai enxugar gelo. Honro a minha farda, faço o meu trabalho, mas não sou ingênuo. Tem corrupção policial, colaboração de comerciante, muita gente envolvida, muita grana nisso aí. Tem de cortar o mal pela raiz", afirmou um PM logo depois de abordar dois jovens suspeitos em uma das esquinas do bairro.

O cansaço e a falta de perspectiva também foram relatados por outros policiais e guardas-civis metropolitanos, que perderam a fé no resultado final e estão apenas "cumprindo ordens", segundo eles mesmos."

Parece que só a prefeitura e o governo paulista acreditam que esta perseguição aos dependentes seja a solução.
E que vai facilitar a especulação imobiliária e põe em marcha o processo de gentrificação, como mostra este vídeo que questiona o projeto de "revitalização" do centro de São Paulo.

1 comentários:

Edison Torres disse...

Poi zé... Tá na hora dos nossos governantes começarem a tratar o problema com a devida gravidade que ele representa. Continuar empurrando a poeira para debaixo do tapete não vai resolver. Ao contrário, corre-se o risco de agravar ainda mais a situação. Nos anos setenta, o governo tentou acabar com a então maior favela de São Paulo, a da Vila Prudente. Transferiu parte das famílias para diversos terrenos da capital paulista. Resultado: a favela da Vila Prudente continua lá... e as famílias realocadas deram origem a diversas favelas espalhadas pela cidade. Uma delas é a do Heliópolis. Eu vi isso acontecer. Morava lá perto na época. O efeito dessas operações pode ser parecido: o tráfico e o consumo se espalharem.
Abreijos
Edison